Discoteca: MARIA BETHÂNIA, “Pássaro da Manhã” (Philips, 1977)

Discoteca

 

Lançado em novembro de 1977, este LP de Maria Bethânia traz canções de seus três compositores preferidos: Chico Buarque, Gonzaguinha e o “mano” Caetano Veloso, além de Rosinha de Valença, Ary Barroso e Lupiscínio Rodrigues, entre outros.

O teatro, elemento constante nas interpretações de Bethânia ao longo de sua carreira, está presente em todo o álbum, através de citações de textos de Fernando Pessoa, do diretor teatral Fauzi Arap, de Clarice Lispector e da própria cantora.

O disco, faixa por faixa:

1. Texto de Fernando Pessoa com fundo musical de: “Até Pensei” – A música de Chico Buarque de Holanda, lançada em 1968 no álbum “Chico Buarque de Holanda – volume 3” (RGE) é pano de fundo para a leitura do belo texto do poeta lusitano Fernando Pessoa (1888-1935):

“Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada…”

2. Tigresa – Composta por Caetano Veloso em homenagem a atriz Sônia Braga, a música foi gravada três vezes no mesmo ano, em discos lançados na Philips: Por Caetano, no LP “Bicho”, por Gal Costa, em “Caras e bocas”, e por Bethânia. A letra narra as histórias da “Tigresa de unhas negras e íris cor de mel”, que trabalhou no “Hair” (clássico do movimento hippie na década de 60) e dançava no “Frenetic Dancin’ Days”, a boate de Nelson Motta que funcionou durante três meses no Shopping da Gávea, RJ, e foi o maior sucesso da noite carioca em 1976.

3. Texto de Fauzi Arap com fundo musical de “Jogo de Damas” / “Um jeito estúpido de te amar” – Fauzi Arap, diretor teatral que dirigiu diversos shows de Bethânia, como “Rosa dos ventos” (1970), é o autor do texto lido pela cantora ao som do instrumental de “Jogo de damas”, composição de Isolda e Milton Carlos gravada por Roberto Carlos em 1974. “Um jeito estúpido de te amar”, dos mesmos autores e também gravada pelo “rei” em seu LP de 1976, foi um dos grandes sucessos do ano, presente na trilha sonora da novela “O astro”, de Janete Clair.

4. Começaria tudo outra vez – Esta e várias canções de Luiz Gonzaga Jr. (1945-1991) foram gravadas por Maria Bethânia em seus discos. É dele as clássicas “Explode coração” (presente no LP “Álibi”, de 1978), “Mergulho” (em 1980, no LP “Talismã”) e “O que é, o que é” (no disco ao vivo “Nossos momentos”, de 1982), entre outras.

5. Promessa – Canção de Custódio Mesquita (1910-1945) composta em parceria com Evaldo Ruy (1913-1954), de contexto religioso, que aborda o eterno problema da seca em diversas regiões do país através de uma conversa com Senhor do Bonfim.

6. Gente – Composição de Caetano Veloso também lançada no LP “Bicho”, de 77. A letra fala da alegria do convívio com as pessoas de uma forma generalizada. A questão política e social, uma das marcas da obra de Caetano nos anos 70, está presente na estrofe: “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”.
Seja na versão de Caetano ou na cantada por Maria Bethânia, uma lista de nomes são lembrados, entre as frases “gente viva, brilhando estrelas na noite” e “gente, espelho da vida, doce mistério”.
Alguns dos homenageados de Bethânia: a fotógrafa Marisa Alvarez Lima (que fez as fotos da capa do LP), Irene (irmã de Caetano e Bethânia), Marieta Severo, Dedé Gadelha (ex-mulher de Caetano), Nelson Motta e Dona Canô, mãe de Caetano e Bethânia, entre outros nomes.

7. Texto de Maria Bethânia / Há um Deus – Em um momento intimista, Maria Bethânia revela uma particularidade: a cantora, em sua casa, tem por costume cantar outras músicas que normalmente não interpreta em shows, como “Há um Deus”, composição de Lupiscínio Rodrigues cantada originalmente por Dalva de Oliveira (1917-1972), considerada uma das maiores cantoras do Brasil entre as décadas de 1940 e 1950.

8. Terezinha – Letra de Chico Buarque, inspirada na cantiga de roda “Terezinha de Jesus”, onde os três cavalheiros (seu pai, seu irmão e “aquele que Teresa deu a mão”) são substituídos por três amantes: o primeiro, vindo do florista, lhe trouxe um bicho de pelúcia e um broche de ametista; o segundo, vindo do bar, lhe trouxe um litro de aguardante amarga de provar; o terceiro, que não lhe trouxe nada, queria apenas o amor da moça.

Curiosidade: Os trapalhões fizeram uma sátira divertidíssima em seu programa, em 77, encenando a história cantada por Maria Bethânia, em um de seus quadros mais marcantes, com uma Terezinha vivida por Renato Aragão.

9. Cabocla Jurema / Por causa desta cabocla – A primeira letra é uma adaptação de Rosinha de Valença (1941-2004); a segunda, uma composição de Ary Barroso (1903-1964) e Luiz Peixoto (1889-1973).

10. Texto de Clarice Lispector com fundo musical de “Um índio” / O que será (À flor da terra) – Em 1976, Bethânia, Caetano, Gal Costa e Gilberto Gil formaram o “Doces bárbaros”, grupo vocal que se apresentou em diversas capitais do país, cujo registro está no LP duplo lançado pela Philips. “Um índio”, de Caetano Veloso, era interpretada por Maria Bethânia e teve seu tema instrumental extraído para a última citação de “Pássaro da Manhã”, um texto da escritora ucraniana Clarice Lispector (1925-1977).

Fechando o LP, a regravação de “O que será (à flor da terra), de Chico Buarque, tema do filme “Dona Flor e seus dois maridos”, do cineasta Bruno Barreto, gravada por Chico Buarque no LP “Meus caros amigos” (Philips, 1976).

Com produção de Maria Bethânia e Perinho Albuquerque, “Pássaro da manhã” foi reeditado em CD pela Polygram em 1992, e remasterizado em 2006, dentro da coleção “Viva Bethânia”, organizada pelo pesquisador Rodrigo Faour.

11 comments

  • Este disco da Bethânia é sensacional, perfeito, na minha opinião o melhor.Acho que clássicos como este, Duran Duran Notorious (1986) Beatles Help, deveriam ser reeditado.

  • meu nome e tatiane camargo sou fa da bethania ,e to a procura de um poema da clarise lispector ,que ela declama em um dos seus grandeosos shows ,e um poema grande e de uma beleza enorme.por favor a tempo venho procurando isso .como nao lembro o nome gostaria de receber todos q ela tenha gravado a clarice.desde ja agradeço ….

  • Esse LP de Maria Bethania, foi um dos melhores discos que já ouvi na vida. Um marco na historia da musica brasileira. Bethania canta com a alma, com o coração, sua voz transborda emoção, carisma, energia. Uma interprey=talão irretocável, magnifica. Ainda tenho este LP mas ficaria feliz se conseguiisse o CD, pois eternizaria essa pérola da MPB. Maria Bethania é o que temos de melhor em matéria de cultura, arte, emoção. ÉD a cultura viva do país.

  • Grande registro em estúdio do show "Pássaro da Manhã",que arrebatou novamente todas as plateias por onde foi apresentado,consagrando mais uma vez a voz vitoriosa e a super-presença cênica da Bethânia.Foi um show e um disco de verão,livre,solto,onde ela cantava absolutamente tudo o que queria cantar.O roteiro dela e do Fauzi Arap permitiram essa liberdade.O cenário e figurinos do Flávio Império exuberantes!Salve a "Senhora do Vento Norte"!!!

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